(...)nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação. Eles voluntariamente ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste. Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio. Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. ( II pedro 3.3-7)


Jesus relembra o modo de vida das sociedades da época de Noé e Ló, para alertar os discípulos sobre os dias de sua vinda. É muito fácil perceber que o declínio social daqueles povos ameaçava a total destruição da raça dos filhos de Deus. Ao invés de encarar o fato de que esse declínio tem se intensificado em nossos dias, na maior parte das vezes optamos por não nos envolver seriamente nisso. Mesmo percebendo a proximidade de um juízo iminente estamos tranquilos por sermos os salvos. Somos cristãos e isso parece nos bastar.Será? 

  É exatamente por sermos tão treinados a pensar na salvação recebida somente em termos de alcançar uma glória futura no céu depois de morrer que se apropriar dos benefícios dela contra as sutis investidas do pensamento do mundo é algo tão complicado em nossos dias. É por isso também que quando o assunto é grande tribulação e juízo, a maioria dos cristãos se agarra cada um à sua doutrina teológica predileta e ao final todos suspiram aliviados por serem cristãos salvos e não pertencerem ao grupo dos perdidos. 

 Porém, quando Jesus compara os dias de sua vinda com os dias de Noé e Ló, ele nos alerta que assim como aconteceu naqueles dias, o juízo abreviará o tempo da iniquidade exatamente por causa dos escolhidos. Os escolhidos são o prumo de justiça em tempos de perdição. O recurso utilizado por Deus para abreviar os dias maus e barrar o crescimento da iniquidade é exatamente o juízo.Não fosse a intervenção divina nem os escolhidos se salvariam, diz a palavra de Deus. 

  Os versículos que escolhi para encabeçar essa mensagem, mostram que nos últimos dias os escarnecedores estarão entre crentes professos. O texto é muito claro para negarmos a legitimidade de sua mensagem. Pedro se refere a pessoas religiosas quando prevê o surgimento de escarnecedores no meio do povo. Afinal, um ateu não questionaria a demora da vinda de Jesus, usando esse tipo de argumentação. É preciso vigiar. Alguém tem ideia de quantas vezes Jesus disse sobre a necessidade de vigiar?  Os anos passam e o mais seguro ainda é seguir esse antigo conselho. Hoje, mais do que nunca, vigiar é a única forma de se manter sóbrio e não sucumbir aos apelos do pensamento do mundo.

  Noé e Ló certamente eram crentes bem melhores que muitos de nós. Eles conseguiram manter a fidelidade em tempos marcados pela urgente necessidade de fuga do pensamento mundano corrente. Mas a lição mais importante que eles nos deixaram é que, quanto mais nos adequamos ao mundo mais difícil será perceber seus malefícios. Muitos serão incapazes de vigiar na última hora porque o mundo estará fabricando para si mesmo seu próprio Deus que atenderá a todas as necessidades humanas sem auxílio divino. Embora Jesus tenha nos alertado a perseverar na fé aguardando a manifestação do seu Reino que não é deste mundo, não são poucos os que nutrem esperança de construir o reino humano em um mundo melhor. As investidas desse engano surgem de todos os lados para nos distrair e nos desviar, concorrendo contra a verdade como um laço mortal.

  Enquanto olhamos para as boas coisas do mundo, nos iludimos a nós mesmos e não percebemos a necessidade de vencer o pensamento de nosso tempo. Enquanto nos gloriamos em sermos o povo salvo, sem perceber, cometemos os mesmos erros que enlaçaram o coração da mulher de Ló que não resistiu e olhou pra trás. Não quero demover ninguém de sua doutrina. Se você crê, você é um salvo e isso depende da graça, depende do trabalho de Cristo e não de suas posições religiosas. A questão é o quanto você será capaz de crer perseverando até o fim mesmo não vendo absolutamente nada, mesmo sem qualquer sentimento ou percepção da presença de Deus! Em algum momento sua fé será provada pelo fogo. Nenhum outro tipo de fé irá sobreviver às duras provações do tempo do fim senão a fé do filho. Somos salvos sim, mas não imunes de ser tragados pouco a pouco pelo mundo, ou de nos agarrar ao pensamento corrente e seguir com ele a caminho do juízo. É bom lembrar que Jesus estava falando para discípulos. Foi aos crentes que ele dirigiu suas palavras de alerta.

  Observamos por um pouco, nossos pensamentos, sonhos, ambições e interesses e vejamos em que eles se distinguem dos sonhos, pensamentos e interesses comuns das pessoas que classificamos como caídas, incrédulas e mundanas. Sejamos honestos em reconhecer que nossa mente está voltada para nossa saúde, honra pessoal, para as boas coisas dessa vida e os proveitos mundanos.Vejam quantos cristãos bem intencionados estão impedidos de orar sem cessar, meditar na palavra e vigiar por estarem engajados em suas próprias edificações que consideram a obra de Deus! Pensem nos que andam despreocupadamente e seguros por achar que seus esforços para promover algo que se aproxime com a Igreja dos apóstolos equivale ao trabalho de Noé. Pensem nos enganados que acreditam firmemente que suas Igrejas, seus ministérios são a própria arca que salvará a raça humana da perdição. Pensem! 

  Quanto engano há em nosso meio! Esses mesmos desvios, esses mesmos enganos irão crescer e frutificar até a última hora. Quantos de nós em um passado recente negaram à geração atual a força do testemunho de Cristo por pensarem que eram salvos e jamais seriam provados na última hora. Quantos por acreditarem que a justificação pelo sangue de Jesus os livraria das provações do fim levaram uma vida cristã relaxada deixando atrás de si um legado fraco. Nós somos responsáveis pela degeneração das gerações vindouras! O que acontecerá com essas pessoas quando se decepcionarem com as doutrinas humanas depois de apostaram nelas todo seu modo de vida?

  Afinal, quantos de nós estão negando a própria vida para andar com Deus? Quantos receberam da parte de Deus instruções para edificar? A verdade é que queremos comer e beber no reino, mas sem desistir dos privilégios que o mundo oferece. E por esse equívoco a obra de Deus tem sido usada pelo pensamento do mundo iníquo como cortina de fumaça para ocultar a verdade e deixar os cristãos tão preocupados com alianças desse mundo, tão ocupados em assegurar suas doutrinas, seus negócios, sua reputação, seus bens e ministérios que não percebem o mundo avançando ao redor, mesmo nos trabalhos considerados espirituais.

  Quando Jesus nos alerta a respeito do juízo, sua ênfase não é a construção da arca, nem mesmo a pregação da palavra e sim a fuga do amor ao mundo. Ele nos mostra a maneira despreocupada como as pessoas viviam enquanto Noé andava com Deus e foi divinamente instruído para fazer a arca. Não era tempo de priorizar o comer e beber, casar e se dar em casamento. Todas aquelas pessoas com suas alianças e casamentos com o mundo se afogaram nas águas do dilúvio. Como foi inconveniente e ridículo insistir nessas coisas e priorizar o mundo naqueles dias! Mas eles nada sabiam. A iniquidade havia se multiplicado, todos estavam confortáveis, embora a maior urgência do momento fosse andar com Deus, se refugiar nele e vigiar como fez Noé. Mas os homens daqueles dias “comiam, bebiam, casavam, e se davam em casamento até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos”. Parem um pouco, analisem a questão da maturidade dos tempos e o significado de uma colheita apropriada segundo o texto:

" Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus."  

  Essa foi a verdade que julgou o mundo em sua geração. Noé era homem perfeito e não tinha pastor nem bíblia. Não conhecia a lei de Moisés, mas era perfeito em sua geração. Deus julga segundo a verdade. Do mesmo modo aconteceu com Sodoma. Ló era um justo que se afligia com a devassidão de seus contemporâneos. E quando a justiça veio como chuva de fogo, havia muitas pessoas distraídas e ocupadas em comer e beber, comprar e vender, plantar e edificar. Quanto esforço vão, quanto desperdício de oportunidade! Mas eles não sabiam! E no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, sem aviso prévio e todos foram consumidos. 

Não é hora de nos encher de ensinos. É hora de andar com Deus e praticar esse evangelho de amor que nos condena perante os olhos do mundo. Jesus nos avisou que Sodoma e Nínive se levantariam no dia do Juízo para condenar cidades impenitentes. Isso não é brincadeira. Na cruz fomos conquistados para a prática da justiça. É isso que demonstra nossa salvação. 

Que Deus tenha compaixão de nós!


Ivaneide Aquino