Amo o evangelho do meu salvador e com paciência espero a manifestação de sua imagem. Caminho, não para me acomodar a algum tipo de conformação com os padrões desse mundo. Não para encontrar alegria em outro bem que não esteja associado á perfeição que nos aguarda no topo do Monte. Quem viu a glória de Cristo não terá prazer em ostentar qualquer glória sujeita a se desvanecer. Quem viu a glória do templo sabe com quem anda, para onde vai e a quem pertence.

  Não entendo como algo produzido pelo esforço humano pode ser aceito como sendo o escopo da vida cristã. Como a boa educação que humaniza pessoas e transforma homens e mulheres caídos em pecadores tão adestrados e éticos quanto distantes da glória do evangelho pode satisfazer um coração que afirma amar a  Deus. Sei o quanto o cheiro do suor que nos transforma em hebreus irrepreensíveis fere as narinas dele.

  Espero algo maior que rodar no deserto da vida, buscando o melhor pedaço na divisão do bolo que alimenta vaidades e paixões humanas. Me recuso a labutar por algo que seja menor que um fruto gerado e produzido no Reino do meu Senhor. Ainda que sendo menor, fraca e oprimida como todas as mulheres pobres do mundo, jamais aceitaria um tipo de poder espiritual que me impelisse a superar meu semelhante para angariar coisas dessa vida. Por mais extrema que seja minha fraqueza, não estou impedida de conhecer as prioridades de meu Deus e defender aquilo que é supremo para ele. É com base em tais certezas que  avalio meu progresso espiritual e desempenho no exercício da vida cristã, não pelo que ganhei, mas  pela quantidade de passos na busca da perda de mim mesma. É estranho isso, há períodos muito ruins, mas é assim que funciona.

  Guardo no silêncio de meu coração a fé que mantém meus olhos no alto para crescer e me envolver cada vez mais com o outro Reino enquanto vivo neste aqui. Minha verdadeira história tem suas bases no sangue daquele amor encarnado que caiu na terra para gerar outras vidas. Mas sei que dentro de um vaso terreno formado de barro sua vida não poderia habitar. Desde Adão a velha vida que animava o barro não podia se misturar á vida celestial. Como azeite não se mistura a água essa união seria incompatível. A carne não pode agradar a Deus. Quando o filho veio para ser o bom prazer do Pai, a vida terrena cumpriu seu propósito e chegou ao fim. Gotas de vida celestial se esvaíram do corpo de meu salvador e a vida de Adão acabou ali. Era apenas uma questão de tempo para se cumprir um propósito eterno. Adão acabou. A velha vida morreu. Ou melhor, Jesus Cristo morreu em seu lugar, pois se Adão morresse segundo o decreto, seria o fim da esperança para todos nós. É a ressurreição que nos salva dos grilhões da morte. Aquela substituição do justo pelo pecador, foi tão necessária quanto é impossível ao homem ressuscitar a si mesmo. O Pai a vida do filho a nós e nos ressuscitou nele. 

  Me recuso a crer que Ele morreu apenas para me ensinar uma nova maneira de viver a velha religião. Que se envolveu tão humilhantemente com a sujeira de minha culpa para me acorrentar a uma doutrina mais limpa e mais justa. Não creio em reforma da velha humanidade, mas no seu fim. Não tenho qualquer esperança no homem adâmico que foi destruído na cruz quando Jesus expirou. 
E a não ser pelo fato de Cristo ter ressurgido dos mortos para nos unir a ele em sua vida, nenhum de nós teria qualquer esperança de salvação. Qualquer ensino que se assemelhe ás soluções psicológicas de autoajuda são, portanto, abomináveis do ponto de vista da vida de Deus. O homem não é uma máquina com defeito nem a Igreja uma oficina. Na verdade a graça nos alcançou a tempo de sermos feitos filhos de Deus e assim se cumpriu a ordem da criação manifestada pela palavra. Pois o que se semeia não nasce se primeiro não morrer.

  Quando o sangue desse justo se derramou no solo terreno, depois de revelada a palavra pura de seu evangelho e enviado o Espírito da verdade que é a vida do próprio Deus, então a criação perfeita pode se manifestar. Esse Espírito, essa vida que o mundo não pode receber nos transformou em filhos de Deus. Só poderia ser dessa forma. Não há alívio possível para a natureza humana. Não há qualquer possibilidade de reforma em nossa natureza carnal e maligna. Deus nos criou á sua imagem, mas nos formou primeiramente com uma natureza animal. Essa era a condição da espécie em seu primeiro estágio. Deus quis assim. Primeiro a natureza animal. Primeiro o natural depois o celestial.

  Só posso aceitar a morte de Jesus nesses termos. Como o cumprimento de um desígnio eterno. Ao revelar ao mundo a  vida celestial ele estava iniciando uma obra poderosa, capaz de atingir toda a criação que depende da manifestação dos filhos de Deus para resplandecer a perfeição idealizada no projeto eterno. Mas escolheu habitar em um corpo de carne, para que diante dele todo joelho se dobre e nenhum homem tenha absolutamente nada do que se gloriar.Adão em sua primeira condição de homem inocente estava nu e não revestido. Sua natureza animal era idêntica á nossa. Porém foi após o conhecimento da lei que ele se tocou que possuía uma natureza carnal. A lei abriu os seus olhos e ele viu seu coração pecaminoso. É isso que as escrituras dizem, é nisso que creio.

  Por isso afirmo que é na ressurreição de Jesus que ganhamos vida, não em sua morte, nem no conhecimento da lei. Após a ressurreição nos tornamos participantes da natureza de Cristo pela primeira vez. Isso é o evangelho que Adão não conheceu, a vida que ele não recebeu. Me recuso a reduzir a glória da cruz aceitando religião como substitutivo da vida do filho de Deus. Ao contrário da vida de Adão a vida de Cristo é celestial e não terrena, espiritual e não carnal. Creio no poder dessa vida e sei que esse mesmo poder ressuscitará os mortos.

  E se alguma coisa sofro pelo evangelho, se há algum esforço diário em minha vida, se me reduzo e me humilho diante dele, é pela esperança de alcançar essa vitória. Pela grandessíssima promessa de tomar parte na glória divina incomparável e superior a tudo que pode ser apresentado como fruto de meu esforço. Caminho dia após dia com o coração repleto dessa alegria que as vezes parece solitária demais para que eu possa suportar. Sem nenhum temor ou receio de estar errada, afirmo que essa sensação de solidão se cumpre em meus irmãos. Esta certeza me revigora. Pois ainda que momentaneamente estejamos espalhados pelos quatro cantos da terra, somos filhos, membros da grande família de Deus Pai.

  Sigo em frente por que sei que adiante de mim está a vida que é infinitamente mais preciosa que qualquer coisa que deixei pra trás. Cristo em nós é maior que tudo que o mundo de Adão tem a nos oferecer. Diante da esperança de receber essa vida, todas as religiões do mundo têm o mesmo efeito de uma mágica enganadora depois de quebrado o encantamento. Resta-me muito pouco a desejar nessa vida. Mas aguardo ansiosamente pela manifestação da glória do evangelho em mim e em todos os meus irmãos. É esta expectativa que move meu coração para prosseguir.


Ivaneide Aquino